quarta-feira, 24 de maio de 2017

‘Trabalhe muito para poder chegar a algum lugar’

Apaixonado por motos, uruguaio deixou seu país, veio para o Brasil, fundou empresa, enfrentou falta de crédito, mas conseguiu sobreviver

Saul Trosman. Foto: Aline Elias/Laquila

Saul Trosman cresceu em meio à loja que os pais tinham em Montevidéu, capital do Uruguai, sempre mantendo o desejo de ter o próprio negócio. Em meio à ditadura no país vizinho, Eduardo, como é mais conhecido, decidiu mudar de ares. “Um país com movimento e efervescência como aqui… O Brasil sempre me atraiu”, conta Trosman, que vai completar 71 anos...

Depois de chegar a Porto Alegre (RS), uniu a veia empreendedora com uma paixão antiga – motocicletas. “Andar de moto e sentir o vento no rosto, esse amor platônico é o que me move”, afirma o empresário, que fundou, em 1979, aos 33 anos, a SID Moto Peças.

Com o tempo, a empresa mudou de nome, hoje se chama Laquila Peças, e de cidade: agora está instalada em Campina Grande do Sul (PR), de onde fornece peças e acessórios para motociclistas de todos os Estados brasileiros.

Começo
 
Eu tinha uma lojinha pequena, na região central de Porto Alegre, onde fui formando minha clientela aos poucos. Minha mulher estava junto comigo o tempo inteiro e passamos por muita dificuldade. Os clientes pediam, às vezes, três, quatro peças e eu só tinha uma. Procurava as lojas vizinhas para comprar o que ainda precisava, sempre fazendo a política da boa vizinhança. Isso fez com que, aos poucos, a loja fosse crescendo. A clientela cresceu e, por isso, precisei aumentar o espaço. Esse processo todo levou 12 anos.

Mudança
 
Em 1991, surgiu a oportunidade de me tornar sócio de uma empresa do mesmo setor, no Paraná. Foram sete anos nessa sociedade, mas decidi voltar as atenções e retomar meu próprio negócio, o que aconteceu em 1998 e reabri a empresa que tinha em Porto Alegre, agora com o nome de Laquila.

Novo foco
 
Hoje, distribuímos quase 6 mil itens, motopeças e acessórios para motociclistas de todo o Brasil. Chegamos a vender motocicletas por um curto período, em que chegamos a revender scooters, tendo em vista que a legislação permitia que menores de idade conduzissem esses veículos. Depois que essa lei deixou de existir, não valia mais a pena vendermos motocicletas, então decidimos voltar o foco ao mercado de moto peças. Além disso, o próximo passo, em relação à montagem das scooters, era ir para Manaus, o que não era nossa prioridade.

Mercado
 
Esse é um mercado em plena expansão. A média mundial é de uma motocicleta para cada quatro habitantes, o que dá um potencial, para o Brasil, de ter até 50 milhões de motocicletas. Hoje, são pouco mais de 20 milhões de unidades emplacadas no País. E o que mais vemos é evolução do mercado no Norte e no Nordeste.

Falta de crédito
 
Aumentamos de tamanho, mas a nossa principal dificuldade continua sendo conseguir crédito. Em 1979, eu era um estrangeiro tentando conseguir crédito no Brasil. Passei grandes dificuldades para ter dinheiro e fazer uma prateleira, para expor os produtos que vendia. Os meus fornecedores só vendiam à vista, quase não tinha condições de pagá-los. Hoje, eles dizem que não acreditavam que eu chegaria onde cheguei. Já com a situação econômica atual, o fluxo de caixa é extremamente importante. O corte de financiamentos dos agentes financeiros fez com que os últimos dois anos fossem bem complicados.
Sucessão
O primeiro e maior deles é a minha sucessão. Minhas duas filhas estão na empresa comigo e com minha mulher. O processo está encaminhado, mas não deixa de ser um desafio diário. Se, por alguma questão, a sucessão não der certo, a empresa segue só com a equipe. Temos um processo de liderança que valoriza nosso time desde o “chão de fábrica”. A nossa diretora executiva, por exemplo, começou como auxiliar de escritório.

Trabalho duro
 
Nós começamos com uma pequena área de 100 m², hoje já estamos em 18 mil m², além de uma área equivalente para expansão. Temos mais de 100 funcionários e todos engajados. Andei o Brasil inteiro divulgando nossos produtos, cheguei a ir três vezes por ano até a China para conseguir fornecedores. Nada pode ser considerado como chave do sucesso, mas, na dúvida, trabalhe muito. Assim você pode chegar a algum lugar.

Exportação
 
Já vendemos para a América Latina e Europa, conquistamos clientes nessas regiões, mas como nossos fornecedores enfrentaram dificuldades em atender o volume de pedidos, precisamos diminuir o movimento nesses países. Acredito que em 2018 – na pior das possibilidades, 2019 – nós poderemos retomar as vendas nessas regiões.

Fonte: Estadão





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